
Questão de identidade: autodeclarados pretos ultrapassam brancos na Bahia
No Brasil colonial, quando não havia, ainda, uma distinção categorizada para a tonalidade da pele de cada negro escravizado, eles eram diferenciados por ser mais ou menos ‘obedientes’. Os que conseguiam fugir eram identificados como negros e os que não se atreviam a tanto – tidos como dóceis – reconhecidos como pretos.
O traço da escravidão, sozinho, não explica. Mas, para especialistas, permeia a compreensão sobre o ‘empretecimento’ de uma Bahia que, pelo terceiro ano consecutivo, é o estado onde mais pessoas se autodeclaram pretas, conforme dados divulgados nesta quarta-feira (22) pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.
Conforme os dados, enquanto de 2017 para 2018, 308 mil a mais se declararam pretos na terra do dendê, os brancos e pardos são 124 mil e 155 mil a menos, respectivamente.
No ano passado, o percentual de autodeclarados pretos no estado era de 22,9% dos 14,7 milhões de habitantes da Bahia. Ou seja, uma em cada cinco pessoas que viviam no estado não titubeou na hora de dizer que é mais um preto da Bahia. Os brancos eram 18,1%. Em percentual de pretos, a Bahia se mantém à frente dos estados do Rio de Janeiro (13,4%), Tocantins (12,4%), Maranhão (11,9%) e Minas Gerais (11,8%).
Desde 2016, aliás, a Bahia é o único estado no país em que as pessoas pretas são mais representativas na população geral do que as brancas. Naquele ano, eles já eram 20%. Embora a maioria seja historicamente representada pelos pardos – que em 2018 eram 58,1% do total -, o baiano está cada vez mais disposto a afirmar que é preto, sim.
Não o ‘preto dócil’ do Brasil Colônia, mas o que ressignificou, de forma positiva, o ‘ser preto’ e, a partir de uma luta da militância negra, “por opção política”, passou a se reconhecer como tal. É o que defende a socióloga e professora do Instituto Federal da Bahia (Ifba) Marcilene Garcia. Para ela, os números divulgados pelo IBGE dão um panorama de que há uma tendência positiva no discurso de autoafirmação preta.
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Rilton acredita que movimentos sociais têm relação com identidade e negritude |
Ressignificação
Coordenadora de uma das bancas de avaliação de autodeclarações da Universidade Federal Bahia (Ufba), Marcilene afirma que o processo de transformação no autorreconhecimento do preto começou a ser transformado na década de 1990, por influência do movimento hip-hop.
“Em ‘E disse o Velho Militante’, um livro muito interessante de Cuti [Luiz Silva, escritor paulista], há uma premissa de Correia Leite [militante negro, morto há 30 anos], que diz: Os ativistas vão dizer que não somos os negros da história. Nós somos os negros da história, rebeldes e resistentes’. Isso, porque os negros, eram os revoltados, quando os pretos eram os dóceis”, afirma.
É quando a ideia de se entender enquanto preto ainda é um tabu, também entre os negros retintos, segundo a professora, que o movimento hip-hop, por influência dos Estados Unidos, traz a “valorização” do termo ‘preto’.
“Aí, pessoas chamadas de pretos e pretas passaram a ser vistas de forma positiva, devido à influência dos Racionais MCs e outros grupos, especialmente em São Paulo, onde quem não era um negro ativista era visto como ‘preto’”, explica Marcilene.
Nos dados divulgados pelo IBGE, a professora enxerga mais que números, mas uma mudança de comportamento. “A categoria de pretos tem uma carga valorativa e um caráter político de resistência. Há uma mudança de conceito, as pessoas estão sendo convidadas a refletir: ‘Eu sou um negro? Negro preto ou negro pardo? A minha cor, dependendo da tonalidade, me torna preto?’. Na minha heteroclassificação, alguns pardos passaram a se identificar como pretos e, alguns pardos que, antes se identificavam enquanto brancos, agora, se veem pardos”, completa
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Marlúcia afirma que entendimento como mulher negra foi ‘descoberta de si mesma’ |
“Eu não gosto de falar de empoderamento porque a impressão é que te deram um poder, mas a identidade do povo negro está ligado à força. Não vejo este crescimento só como um dado, mas associado a um período de descoberta interna”, resume.
A jornalista comenta os brasileiros são “culturalmente formados sobre uma base de exclusão”, que inclui, ainda, o fator social. Marlúcia também defende que a ausência de debates acerca das questões raciais dificulta, inclusive, que as pessoas negras cheguem a acreditar que nunca foram vítimas de racismo.
“Assim como para mim, o debate era algo oculto. É libertador quando você se reconhece, porque passa a ver o mundo com outros olhos. Quando você é uma mulher negra preterida, e você não entende como isso está estruturado, você acha que é um problema orgânico seu, mas não é”, salienta Marlúcia.
Para o estudante Vinícius Gomes, 21, se autodeclarar preto foi uma mudança profunda. “Eu sempre tive dificuldade em me declarar negro, preferia ser considerado moreno. A partir do momento que eu me aceitei, foi uma mudança drástica”, conta. A mudança aconteceu depois que Vinícius passou a estudar mais a fundo a história do Brasil e temas como o colorismo, que acabaram o fazendo refletir sobre si mesmo.
O caso de Vinícius pode explicar como, de 2012 para 2018, segundo o IBGE, o número de baianos que se autodeclaravam pardos caiu 3,9%, enqunto o dos que se consideram pretos subiu, no período, 35,5%.
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Vinícius conta que estudo sobre a História do Brasil o fez se reconhecer como negro |
Já a assistente social Fabiana Pontes, 43, acredita que a questão da identidade preta está mais latente: “O negro tem se visto mais como negro. Geralmente as pessoas se consideram pardas, morenas, e não se identificam como negras. Talvez, essa movimentação de conhecer sua história tenha mudado também a forma das pessoas se declararem”, aposta.
Para o poeta e ator Rilton Júnior, 23, a mudança de perspectiva tem forte influência na autodeclaração das pessoas. “Na verdade, a maioria da população é negra, mesmo que não se declare. Eu acho que os movimentos sociais, o movimento negro, de arte e cultura em geral, tem propiciado para a população essa identificação com a negritude. É um espaço para um posicionamento positivo sobre o ser negro na sociedade, dos benefícios de ser negro e da contribuição do povo negro dentro da sociedade”, defende.
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Negro preto, negro pardo
Para o professor de Literaturas Africanas do Instituto de Letras e pesquisador do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Ufba, Josiel Oliveira, os dados divulgados pelo IBGE têm relação direta com o debate da autoafirmação e ações afirmativas.
“São dados que refletem, basicamente, que mais pessoas que se viam pardas agora se enxergam negras. Isso é muito representativo socialmente, é importante. Entretanto, não é algo a se admirar, considerando que temos a maior população de negros do país”, diz.
O racismo, para Josiel estruturado como uma “medula sistemática” no país, é um dispositivo central de opressão que promove preconceitos e discriminação, com distinção dos pardos e pretos.
“Eu não vejo como um problema se uma pessoa antes se entendia como parda e, atualmente, com o processo de transformação e presença da cultura africana, agora se entenda como negra. É parte do processo. Mas as pessoas devem estar atentas ao seu fenótipo, porque os pretos são os que, comumente, serão alvo de violência”, alerta.
Josiel comenta, no entanto, que o debate deve ser positivo. “A gente só precisa ter um olhar atento. Se você é uma pessoa que se autodeclara negra, seja preta ou parda, acho que a maior forma de expressar isso tem de vir acompanhada de atitude, vivência específica do sujeito negro que, em geral, está ligada à discriminação”, reitera.
A possibilidade de que o crescimento na proporção de autodeclarados pretos tenha qualquer relação com uma espécie de “conveniência”, a exemplo da possibilidade de se beneficiar das cotas raciais pode existir, para o professor Josiel, mas de maneira pontual, acredita.
“Quando o assunto é racismo, no Brasil, uma coisa nunca é só uma coisa. É algo muito internalizado. As cotas raciais nas universidades, nos concursos públicos, junto com a constitucionalização da educação étnico-racial, em 2003, são coisas que têm um valor simbólico”, explica.
Josiel argumenta que uma pessoa que passou a se autodeclarar preta possivelmente viveu o processo de ascendência negra e adquiriu uma espécie de orgulho, ou “consciência sintética”.
A banca de autoavaliação das cotas da Ufba tem a intenção, por exemplo, segundo a coordenadora Marcilene Garcia, de apresentar aos candidatos autodeclarados a possibilidade de compreender o que, de fato, pesa para uma pessoa ser ou não ser considerada apta às cotas.
“Quando a Ufba faz uma aferição para impedir as fraudes, o debate ultrapassa o universo das universidades. Pretos e pardos são negros e, inclusive, estão bem próximos de se considerar o fator social. No Censo Demográfico do IBGE (2010), a diferença de salário entre os pretos e pardos era de R$ 45, quando a distinção, em comparação aos brancos, saltava para um salário mínimo”, complementa, ao comentar que a Ufba indeferiu um número considerável de pessoas “irrefutavelmente brancas” nas avaliações.
Os traços “negroides”, no entanto, são lembrados pela professora como agentes que dão a possibilidade do negro – autodeclarado ou não – sofrer racismo.
Bahia preta, Bahia branca
A Pnad Contínua, cujos dados foram divulgados nesta quarta-feira (22), não detalham a autodeclaração por município. Mas, de acordo o último Censo, de 2010, seis dos dez municípios ‘mais pretos’ da Bahia tinham mais de 40% da população se autodeclarando preta.
Já entre as cidades com mais gente se autodeclarando branco, dois tinha mais de 50% nessa situação. Veja a lista:
Dez municípios com mais autodeclarados pretos:
– Antônio Cardoso (50,65%)
– São Gonçalo dos Campos (41,96%)
– Conceição da Feira (41,25%)
– Cachoeira (40,65%)
– Salinas da Margarida (40,10%)
– São Francisco do Conde (40,01%)
– Santo Amaro (38,44%)
– Ouriçangas (37,74%)
– Saubara (35,16%)
– Igrapiúna (33,83%)
Dez municípios com mais autodeclarados brancos:
– Dom Basílio (54,41%)
– Ipupiara (53,19%)
– Rio do Pires (47,90%)
– Lagoa Real (47,85%)
– Rio de Contas (47,75%)
– Rio do Antônio (46,41%)
– Caturama (45,34%)
– Abaíra (45,17%)
– Jussiape (45,09%)
– Malhada de Pedras (44,65%)
‘Descoberta de si mesmo’
Aos 17 anos, quando ainda optava por fazer alisamentonos cabelos, a jornalista Marlúcia Leal, hoje com 31, passava longe da mulher que se tornou. Nas próprias palavras, o processo de entendimento enquanto mulher negra funcionou como uma “descoberta de si mesma”.